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Assédio Moral

curtidaPor Maria Odete Olsen – Jornalista.

Esta noite estive insone. Faz tanto tempo que não sei o que é isso, mas aconteceu. E por isso resolvi escrever. Antigamente a gente escrevia e colocava na gaveta, hoje a gente compartilha na rede social. Nem todos fazem isso, por precaução, receio de chamar a atenção, receio da exposição. E até porque as pessoas procuram exibir o que tem de melhor e assim temos a impressão que na rede social todos são felizes, lindos, almoçam, jantam e bebem colorido.

Hoje estou insone, porque nesta semana fui alvo de uma agressão fruto da modernidade, um evento do século XXI, o ASSÉDIO MORAL. Ser vítima de pessoas com determinado entendimento de informática e que usam esse conhecimento para denegrir, humilhar sistemática e metodicamente a outra pessoa. No meu caso por um hacker que se autodenomina publicitário e usa seus conhecimentos para achincalhar autoridades, policiais e pessoas com visibilidade. A visibilidade já vem do século anterior. E o que é isso? Só é notícia o que for visto, se aparecer na tela de uma televisão, então aconteceu (procure em Rifiotis, Theóphilos ). Agora isso foi aperfeiçoado a partir das Midias Digitais e com elas os novos termos como curtidas, compartilhamentos, indicadores que demonstram prestígio do indivíduo, da pessoa. No entanto em qualquer análise mais apurada, vê-se nesses procedimentos um tremendo equívoco, pois repleto de contradições. Comprova-se pelos paradoxos, um gay é queimado na Nigéria e sua foto tétrica, de um esqueleto seco e retorcido pela dor e pelo sofrimento exibida na rede social, merece milhares de curtidas.

A chuva que leva uma rua, suas casas, pessoas, um bairro inteiro em sua corredeira – milhares de curtidas. Estamos desenvolvendo uma atração pelo mórbido, pelo cruel porque é fascinante a instantaneidade que os equipamentos eletrônicos nos permitem. Sentimentos antigos como solidariedade, amizade, dignidade, acreditem, em determinados momentos são pura ficção.

Esta semana conheci o impacto do assédio moral. Fui achincalhada, humilhada por um indivíduo que nunca vi ou conversei, apenas porque não compartilhei uma postagem contra uma elevada autoridade policial do nosso estado. Eu conheço esse senhor e respeito ele, pois já o entrevistei e por isso NÃO COMPARTILHEI.

A consequência dessa minha atitude veio como uma avalanche. Fui chamada de cadela velha, jornalista de merda, capacho do Edir Macedo e de funcionária de rabo preso ao poder e a empresa Record News, com a qual tenho parceria, só porque não exerci um comportamento interativo relacionado a sistemática do Facebook, o compartilhamento de um post recebido através do inbox. Pela mesma via, na semana anterior, essa pessoa chorava suas mazelas dizendo que a vida não tinha mais sentido que iria se suicidar.

Interessante é que a mesma agressividade e arrogância que ele atribui à nossa polícia e a determinadas autoridades, é a mesma que ele usa ao impor seu texto corrosivo coberto de picuinhas e mediocridade.

E por que eu não me calei você deve estar se perguntando. Por que valorizar tanto esse lixo? Sinceramente, acredito que pela minha maneira de ser e agir. Emoção, falta de treino para a frieza e a indiferença. Me disseram esquece não responde, passa por cima, você é a leoa e ele a pulga, pois só bate em quem tem visibilidade. Correto, estas pessoas só assediam moralmente quem tem visibilidade. Mas justamente porque tenho esse lado emotivo aliado a minha hiperatividade e que já me trouxeram mais problemas que alegrias, é que doeu. Pois acredito que nossa vida é delimitada por fios tênues invisíveis, os quais não se pode ultrapassar. Praticar o assédio moral no sentido de constranger a outra pessoa também é bullying, em sua prática mais perversa.

O assédio moral é impactante, dolorido e nojento, porque você se torna vítima de um crime cuja legislação é pífia. Num primeiro momento a sensação é a de ter a imagem construída, se desfazendo pela ignorância de alguém que te agride provavelmente por não ter eco em suas afirmações. Não se sente merecedor de reconhecimento. E daí esse morto-vivo, esse ghost precisa de sua visibilidade conquistada para existir. E essa carência de louros deve doer muito e por isso ele bate, porque no fundo ele também sofre por tanto bater e não derrubar.

Isadora Vier Machado, em sua tese de doutorado em Ciência Humanas na UFSC fala sobre as consequências desse tipo de situação num magnífico texto intitulado DA DOR NO CORPO À DOR NA ALMA: UMA LEITURA DO CONCEITO DE VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA DA LEI MARIA DA PENHA orientada pelas doutoras s orientadoras, Miriam Pillar Grossi e Mara Coelho de Souza Lago. Em sua introdução Isadora fala da Lei 11.340/06, chamada Lei Maria da Penha, e mais especificamente o artigo7º, inc. II, que define as chamadas violências psicológicas.

Eu não tinha visto o que estava acontecendo na rede social porque sou muito focada no que faço como coordenadora e apresentadora na Record News de Santa Catarina. Então percebam a dimensão que estas palavras pejorativas tiveram, quando um amigo me disse: estas são as postagens que fizeram contra você. E lá veio aquela enxurrada de prints.

Ser chamada de cadela velha, jornalista de merda, capacho do Edir Macedo e de funcionária de rabo preso ao poder e a empresa Record News de Santa Catarina, doeu sim. O efeito do impacto é a violência psicológica que Isadora Vier Machado analisa sobre o viés das relações conjugais. Fiquei doente com calafrios, dor de cabeça, náuseas. Como se tivesse engolido algo podre e não conseguisse vomitar essa coisa nefasta.

Ainda estou analisando, as fotos, as palavras e toda a minha suscetibilidade ante o episódio. Mas como tudo nessa vida tem um lado positivo, percebo que ao escrever sobre o assédio moral que sofri, retomei meu ofício número 2, o de escrever. Quem viver, verá!

2 comments to Assédio Moral

  1. Giovanni
    março 2nd, 2014 at 15:17

    Gostaria de saber quando o programa do dia 28/2/14 estará disponível para download?

  2. admin
    março 5th, 2014 at 15:24

    Está no ar!

    Obrigado pela audiência.

    Charlie A. Olsen – Webmaster
    http://www.educacaoecidadania.com.br