A sala das patricinhas de Direito e o wireless

Alicia Silverstone

por Maria Odete Olsen

11:24h da manhã de hoje, ligo a CBN-Rádio indo de Santo Antônio de Lisboa para o centro de Floripa. Nesse momento 2 jornalistas/radialistas que admiro e respeito muito, estão comentando manchestes e ocorrências, relatando fatos e emitindo opiniões. Um deles fala para o outro: – “o que vou te dizer agora é um relato que me passaram, não é uma opinião. Me disseram que em uma faculdade de Direito particular de Florianópolis, existe uma sala de estudantes que estão iniciando e que é conhecida como a sala das patricinhas. Ou seja, são garotas que vão a aula, super arrumadas, maquiadas, piastradas, unhas feitas. Detalhes, toda essa produção para ir a aula tem um único objetivo: paquerar. Fiquei estarrecido.”

Mais na frente acrescentou, “você sabia que o antigo caderno está quase superado em algumas faculdades (particulares) e colégios, porque os alunos estão levando para a sala de aula notebooks e ficam o tempo todo no MSN.”

Bem, fiquei refletindo cá com os meus botões… hoje é terça-feira, depois de um feriadão, o caso Isabella já começa a se esgotar em termos de mídia, realmente, comentar sobre as patricinhas da faculdade de Direito até procede e levando em conta que um dos comentaristas “segue a linha ultraconservadora nos comentários em rádio e TV”, é um assunto e na falta deste, até pode render um comentário razoável.

A questão é o preconceito e os julgamentos que um simples blábláblá desses de rádio sugere. Por que mulheres arrumadas e aqui entende-se unhas pintadas, cabelos produzidos por “escova” ou “piastra”, são consideradas patricinhas, termo pejorativo, cuja origem “pesquisamos” no google…

Uma das hipóteses está ligada ao high society carioca. O termo Patricinha teria surgido em homenagem a Patrícia Leal – uma jovem de família nobre do Rio de Janeiro dona de um estilo carinhosamente apelidado pela alta roda e hoje adotado por muitas meninas por todo o Brasil.”

Outra vertente jura que o termo surgiu “a partir de emotional hardcore, vertente do rock que despontou nos anos 80, em Washington D. C.. Atualmente, as bandas internacionais mais queridas pelos emos são Simple Plan, My Chemical Romance e Good Charlotte. No Brasil, Hateen, NxZero, Fresno e CPM 22 estão entre as prediletas.”

De qualquer forma, parece que as meninas de rosa, perfumadíssimas, cabelos empiastrados e loucas por consumo foram consagradas na comédia de Amy Heckerling, estrelada por Alicia Silverstone, As Patricinhas de Beverly Hills, lembram…enfim, onde quero chegar?

Se uma faculdade permite que suas alunas freqüentem aulas produzidas, que mal há nisso? Se uma faculdade permite que suas alunas freqüentem aulas produzidas com o objetivo de paquerar, ou “caçar”, que mal há nisso? Até porque quanto tempo duram numa faculdade de Direito com critérios, alunas com perfil ligado a futilidades? Mas, e se este for o perfil de uma mulher, como é de muitas mulheres que possuem autoestima e se cuidam e cultivam esse lado feminino sem serem fúteis, que mal há nisso?

Se alunos levam noteboocks para as salas de aulas e estão decretando o fim do superado caderno, que mal há nisso? Já presenciei alunos em aulas com computador, janelinha do msn e do orkut abertas, mas o professor em cima, fiscalizando o tempo todo o uso do computador e da pesquisa que estava orientando. Professores modernos, atuantes e conhecedores do equipamento. São raros, mas existem.

O mal está, convenhamos, no preconceito, na hipocrisia e nos estigmas que vamos criando, implantando e difundindo na mídia seja rádio, televisão entre outras. O mal está no jargão “mulheres produzidas”, “mulheres desleixadas”, “patricinhas”. O inverso dessas caricaturas, meninas ou mulheres carentes de qualquer produção, implicaria no fato delas estudarem mais? Muitas vezes meninas tristes, sem condições, com problemas de autoestima pela opção que precisam fazer, ou custeiam os estudos ou o visual…

Quanta bobagem. Quantas indagações. Quanta hipocrisia, repito. E nesse diálogo mudo entre os locutores da CBN, eu e meus botões e nossas divagações, me ocorreu lembrar a primeira coisa que perguntei inocentemente aos coordenadores de uma pós-graduação em Direitos Humanos que inicío em maio: vocês tem wireless nas salas de aula?

6 comments to A sala das patricinhas de Direito e o wireless

  1. Leda Limas
    abril 24th, 2008 at 16:04

    Realmente, Maria Odete, quanta bobagem. E depois, nós mullheres temos a fama de frutiqueiras. Fico pasma em saber que ainda tem gente que acha que estudante deve usar somente jeans surrado, camiseta e chinelo. E ainda que mulher arrumada é sinal de falta de inteligência e cultura. E o pior: que o velho e bom caderno é o único instrumento que pode estar sobre a bancada escolar.
    Adorei…
    bj
    Leda

  2. joellen henckel
    maio 28th, 2008 at 08:34

    Legal, adorei tudo isso… eu vou no shopping e trago um monte de compras que nem ela. Sempre vou ser patty.

  3. admin
    maio 29th, 2008 at 21:29

    Com certeza Joellen, todas temos o nosso lado patty e fazer compras, ficar linda é até terapêutico, falam os especialistas. Na verdade a foto da atriz Alicia Silvestorne entrou como paródia às patricinhas de Floripa, tão lindas quanto ela. O texto mesmo é um desabafo sobre a bobajeira anual do BBB. Mas rende milhões com sua fantástica audiência. Na verdade a bobalhona aqui sou eu, sacou? Abs. Maria Odete

  4. Valkyrya
    junho 27th, 2008 at 19:31

    Nossa, é de ficar pasma mesmo. Até parece que não entenderam que estamos no século XXI. Mas por um lado este comentário foi ótimo para verem que temos escolas boas no Brasil e que de um simples caderno passamos para um ótimo notebook, e se o governo e as pessoas se conscientizassem isto não haveria somente em escolas particulares mas também na escolas públicas. E parabéns para as mulheres que se dão o minimo de valor e se arrumam um pouco, isto, pode não ser uma patricinha e sim ser mulher. E um viva aos ignorantes…
    beijinhuxxxx

  5. Ana Julia
    dezembro 17th, 2008 at 16:52

    Sou paty e sempre serei e acho que as escolas devem começar a deixar as alunas principalmente se arrumarem mais e sem falar nas blusas de uniforme… CREDO! É totalmente out! Simplesmente o que eu faço para o meu hobby (para desestresar) é comprar, comprar e mais comprar… e amo fazer isso!
    kisss
    by

  6. DiL
    novembro 27th, 2009 at 01:04

    O termo patricinha é por estarem arrumadas?
    Acho que na sociedade existem preconceitos e contradições; Exemplo: ninguém curte dar um bom emprego a uma pessoa mal vestida/arrumada, porém ninguém gosta quando vamos à aula bem produzidas; E muito menos quando é pra paquerar… Acho que isso independe de qualquer aceitação, porque não é só nas faculdades que existem esses tipos de casos, e sim em ambientes de trabalho, lazer e etc.
    beijoos e adorei a matéria!