Congratulações

por Olsen Jr.

Falando francamente, não acredito que chegue aos 60 anos. Por várias razões que não vêm ao caso. Mas eu não conto, neste caso. O fato é que, em meados de 1975, ela era a mãe da mulher que eu amava. Cabeludo, barbudo, jeans ensebado (como diria o Woody Allen), algumas idéias na cabeça e, claro, todo o tesão de mudar o mundo. Quando cheguei, me olharam como todos olham aqueles que chegam. Havia certa desconfiança, afinal, como se dizia na época “cabelos compridos, idéias curtas”.

O tempo passou. Com o tempo, o conhecimento. Aprendemos a ver o lado positivo, o que faz a diferença, em outras palavras. Já distinguimos qualquer sujeito de um sujeito qualquer.

Não fui diferente. Fiz o que fiz na época em que deveria ter feito. Então, fui integrado na família. O irmão mais novo “dela” (da filha) dizia que, finalmente, havia um “cara” legal… Deduzo que os “outros” não eram legais… O que quer dizer isso? Nada. Apenas uma questão de marketing pessoal, supondo que insistam.

Mas aí, vi naquele ser, na mãe da mulher que eu amava, uma lutadora com um jeito peculiar de encarar a vida e todos que a integravam. Havia, claro, nos finais de semana, aquele pudim de leite condensado que ali se chamava – na intimidade – de pudim de leite moça; também aquela cuca de farofa com banana sempre secundada de um café forte em que o sono era afugentado com muita categoria. Depois, se disposição houvesse, poderíamos jogar uma canastra em família em que certas forças eram medidas não sem antes muito riso e determinação. Bons momentos aqueles, belos fins de semana que não voltam mais.

Agora, depois de muito tempo, de muita água já passada por debaixo da ponte, recebo, ou lembro, que esta semana fizestes 75 anos. Passo a recordar tudo isso, naquela década de 1970 em que vivíamos a ditadura militar ainda, e o teu carinho era tudo o que um garoto gostaria de ter e, ao teu jeito, do teu modo, inspiravas este aconchego, com uma ternura nunca explícita abertamente, mas exposta em cada gesto, em ações que conspiravam para uma unidade familiar que há muito não sentia, mas estava presente como uma extensão de minha própria casa, onde me sentia bem, onde me sentia gente, onde a família justificava todas as ações, onde – principalmente, me sentia humano.

Você faz aniversário hoje, tia Elvira. São 75 anos de vida. Poxa, 75 anos não é para qualquer um. Penso na minha própria mãe que morreu com 55… e de meu pai, com 72. E a vida toda correndo por fora, inculta, célere, implacável. E nós confundindo-se com ela. Deus meu, onde tudo isso vai parar? Sim, sei que tudo se resume em lembranças vagas, afinal, é o que resta para nós, os poetas, recordar fatos e feitos, com estas migalhas que levamos tudo adiante, precisamos nos atochar de heroísmo. Afinal, temos de acreditar que vale a pena, senão como suportar o peso de nosso passado, a saudades de nossos ausentes, a dor pelo que não entendemos, os desígnios que parecem ser traçados antes de nascermos e sobre os quais não temos nenhuma ingerência…. Assim é a vida, assim é a vida.

Hoje, portanto, neste aniversário que transcorre, de onde estou, queira receber o meu carinho, como um filho ausente, incapaz de abraçá-la, mas solidário com esta possibilidade. Afinal, como se dizia antigamente, é a intenção que conta, mais que do fato, a vontade de exercer esta prerrogativa, ausente, mas solidário, unidos neste amplexo mundano, à distância, como o filho pródigo, repito, que já foi perdoado mas não hesita em manifestar o seu desencanto com tudo ao redor, ainda que este desencanto seja materializado num abraço não dado, mas ainda assim como a mãe que não tenho mais, possível. Vai então, meu parabéns e a gratidão por fazer parte ainda desta família.

1 comment to Congratulações

  1. Renato Hardt
    maio 4th, 2008 at 22:16

    Prezado Olsen Jr.

    Não tive a honra de conhecê-lo pessoalmente. No entanto, seu artigo publicado no jornal A NOTICIA edição de hoje (25/04/08) me emocionou. Quisera eu que as pessoas deste mundo de Deus levassem na devida conta a importância da família e das boas amizades.
    Seu texto demonstra um sentimento bonito, importante e cada vez mais em extinção, infelizmente!
    Parabéns em externar com tanta coragem e propriedade seus sentimentos de saudade e de respeito à família onde impere, amor, compreensão, solidariedade e responsabilidade.
    Não conheço igualmente sua Tia Elvira, mas Ela deve estar muito orgulhosa e feliz pelo sobrinho que tem, que tão bem escreve, conseguindo através de um artigo bem escrito, externar seu amor e respeito por ela.
    Parabéns à Dona Elvira e também a Você Olsen Jr.
    Forte abraço,
    Renato Hardt .