Refletindo sobre a maldade

Boneca utilizada na reconstituição do crime
Foto: Marcelo Pereira/Terra

por Maria Odete Olsen

Uma manhã inteira de domingo para a reconstituição do assassinato da menina Isabella de 5 anos há quase um mês no edifício London, em São Paulo. Fiquei ligada na Record News, que falou, mostrou, repetiu e comentou tudo numa aprimorada cobertura jornalística de impressionar pelo fôlego de toda a equipe.

Mas é impossível acompanhar o caso Isabella apenas por este prisma. É impossível não sentir alguma emoção e indignação, no momento em que os policiais penduram o corpo de uma boneca, simulando como o pretenso assassino e indiciado pai da vítima Alexandre Nardoni, teria jogado o corpo da filha do sexto andar naquele fatídico 29 de março de 2008. Impossível não pensar na maldade humana. Impossível não falar dessa maldade quando diariamente se é bombardeado pela mídia em todos os níveis sobre as múltiplas possibilidades que levariam um pai a praticar um barbarismo desses em pleno século XXI.

Retomo pesquisa que realizei há uns 5 anos sobre a Construção Simbólca da Violência na Televisão sob a orientação do antropólogo Theophilos Rifiotis e onde me reporto entre outros autores, ao pesquisador inglês Jack Katz autor de “What makes crimes news? O que faz do crime uma notícia?”, como escreveu Katz em 1987. Segundo este autor, para entender o que faz do crime uma “notícia”, deve-se explicar a aflição voluntária de experiências emocionalmente perturbadoras no indivíduo, num nível maciço, dia após dia, na sociedade moderna. A leitura de notícias criminais serviria a um propósito similar de um banho matinal, exercício físico rotineiro, o barbeamento, enfim: o ritual, valor da experiência não racional que é, em certo grau, chocante, desconfortável e autodestrutivo, e que é voluntariamente tomado por adultos em reconhecimento de sua obrigação pessoal para manter-se em uma ordem social mundial.

Ou seja, vivi na prática hoje a teoria de Katz de que os crimes satisfazem necessidades emocionais e com esta sensação provocamos uma espécie de catarse ao nos sentirmos melhores ou mais limpos que os Nardonis, por exemplo. Um outro exemplo dessa catarse seria a manisfestação do público presente num dos momentos da reconstituição do crime, quando pediram aos policiais que não lançassem o corpo da boneca do sexto andar a exemplo do que havia ocorrido a Isabella. Um carinho e uma consideração que esta não têve.

Mas apenas me reportei a todas estas reflexões porque o que realmente me trouxe a estas linhas, foi o pensar a dimensão da maldade humana. Foi um texto do psicólogo argentino Oscar Manuel Miguelez em que ele analisa a questão do mal a partir do livro “Eichmann em Jerusalém”, de Hannah Arendt, que traduziu em parte essa busca que talvez esteja apenas iniciando. É verdade que o texto de Miguelez fala do ponto de vista de Arendt sobre o holocausto e o silêncio desta autora em relação a Freud, já que ele parte da premissa de que o mal é uma questão freudiana.

O mal do qual falo, é o mal maléfico oriundo do mais profundo âmago do ser humano e originário de questões banais como o ciúme, a raiva, o sentir-se preterido(a) e outras sujeiras e sentimentos baixos e mesquinhos, que predispõe o ser humano a uma carência absoluta de ética e moral e como conseqüência capaz de provocar uma tsunami de rancores tão grande que levariam ao estrangulamento uma criança de 5 anos. “Aqui o narcisismo mostra seu rosto macabro. A crueldade se instala de um modo que só o ser humano é capaz de montar.”

A maldade é uma exclusividade do ser humano. E brasileira também. A cada dez horas uma criança é assassinada no Brasil.

1 comment to Refletindo sobre a maldade

  1. Miriam
    maio 1st, 2008 at 09:12

    Bom dia!! Brilhante relato do caso nardoni! Demonstra que conhece muito a alma humana e suas nuances. Pessoas de caráter existem sim! Graças a Deus!