Os poltrões

por Olsen Jr.

A vida e o que diz respeito a “ela” chegou a tal ponto que não podemos mais ignorar “o quê” pode torná-la pior, ou mais difícil de levar, como se queira. Claro, poderia estar falando das “coisas” boas, mas o ideal que se quer cada um os elege, mesmo em sonhos, eles permanecem lá, tangíveis, portanto. Detenho-me agora no “coletivo”, nestes pequenos atos que nos fazem pensar na Suíça, por exemplo, ou nos países escandinavos com certa mal estar em contraposição ao “nosso” cotidiano insolente, brutal, cínico, grosseiro, canalha, hipócrita, inviável.

Tem indivíduos que se especializam em embrutecer ainda mais a vida, em desviar nossa atenção daquilo que poderia nos tornar melhores com atitudes de grosseria, de comportamentos cuja insolência apenas engrandece a nossa pequenez e, é desse ser que me vou ocupar. Daquele cujo estereótipo apenas é humano, tudo o mais são características do que se conhece genericamente como “poltrão”.

O poltrão não tem uma classe definida, pode ser um remediado ou um milionário; também não possui um sexo específico, pode ser macho ou fêmea com ornatos de boutique ou não, enfim, a característica que os aproxima e une é sempre a mesma: uma falta de educação que vem acompanhada da ausência de respeito (por si e pelos outros) e temperada com uma dose de egoísmo que os faz acreditar que o mundo existe porque “eles” o habitam.

O poltrão legítimo leva consigo o seu “bem estar” no mundo, sente-se sempre à vontade em qualquer lugar que vá, principalmente quando faz turismo, abrir a janela do carrão importado e jogar garrafa de plástico ou latinhas de cerveja pela janela é muito natural em seu comportamento, que mais não seja, porque está pagando bem para os nativos efetuarem a limpeza depois que for embora. Poltrão que é poltrão gosta de ostentar, afinal as suas posses compensam outras deficiências que se tornam evidentes, como afirma o poetinha lá na Lagoa da Conceição, “saímos da barbárie para a internet sem um estágio intermediário de civilização e isso está fazendo a diferença”.

O poltrão estaciona o carro na beira da praia, abre o porta-malas e despeja aquele som todo quebrando a harmonia do ambiente, pra ele é natural trazer a própria frustração de casa; o poltrão entra no restaurante e procura um canto quando então se senta no lado de dentro da mesa deixando a companheira exposta; poltrão nenhum é capaz de um gesto que denote gentileza, isso quebraria o encanto de sua solidão; o poltrão te ultrapassa na rampa de um shopping e não perde a pose quando você chega junto com ele no semáforo lá embaixo, afinal uma circunstância que não ocorre sempre; o poltrão não admite quando está em uma fila mesmo em casa lotérica, que haja privilégios para idosos e gestantes ou portadores de necessidades especiais; o poltrão aprecia discutir com um caixa de supermercado sobre o ingresso do cachorrinho da mulher que o acompanha, amiúde o sujeito ignora que o grande cachorrão é ele próprio… Poxa! Cada um pode escolher os seus próprios exemplos…

Agora, você tem certeza que está diante de um poltrão quando acabam de trazer o teu café com aquela “broinha mineira” e o sujeito da mesa ao lado acende um charuto. Depois da primeira baforada você olha pra ele e com sarcasmo afirma “fumar charuto é um charme”… O cara surpreendido pelo elogio agradece com um “muito obrigado” e acrescenta “questão de bom gosto” …É, você pensa, bom gosto para uns, mau comportamento para outros e tudo o mais que se dane, enquanto pede a conta, antes de sair outra vez indignado!

* Olsen Jr. escreve às sextas-feiras no jornal AN, caderno Anexo, p. B3.

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