A mulher do sargento

Olsen Jr.

Os rumos que tomamos na vida. Está aí um bom assunto. Penso nisso enquanto estou cortando os temperos para fazer uma sopa de legumes. Na mesa ao lado, um cd de Tony Sheridan que comprei naquela tarde em um sebo aqui em Florianópolis. Comento com minha filha e com o marido dela que os Beatles acompanharam este cantor em 1961 em Hamburgo, na Alemanha, no início da carreira. O nome deles mal aparecia no cartaz que anunciava o show. Quando a estrela principal descansava, nos intervalos, os Beatles mandavam ver improvisando tudo o que sabiam. Uma das músicas, My Bonnie, do folclore norte-americano, tocada em ritmo de rock foi a pedra de toque do primeiro sucesso deles. Aquele arranjo nem constava no cd que havia adquirido, em compensação estava lá, Cry for a Shadow, de George Harrison, a única só instrumental que gravaram em vida.

Eles ouvem atentamente o que estou dizendo até a conclusão “vá que esta questão caia num destes concursos públicos que se fazem por aí”, rimos.

Depois volto a pensar nas circunstâncias que nos fazem escolher as trilhas de nossas vidas. Entre os meus amigos (são poucos, mas são bons) temos algumas coisas em comum, por exemplo, a maioria é formada em direito, quase todos exerceram (ou ainda exercem) a atividade de jornalista e no fundo, se fosse em outro lugar, na matriz por exemplo (leia-se Estados Unidos da América) gostaríamos de ganhar a vida como escritores.

Como isso ainda não é possível, vamos gastando tempo, energia e abreviando a vida com outras atividades paralelas para manter uma dignidade e a vida valendo à pena, mas que dói, dói.

Dia destes, comentávamos lá na Taberna do Spinoza, no Mercado Público, com o Raul Caldas, sobre um conhecido nosso, perfeitamente “encaixado” na categoria já explicitada acima (formado em direito, jornalista e escritor) e que por circunstâncias outras caiu na Procuradoria Geral do Estado. Tudo parecia normal até um dia em que precisou dar um parecer sobre um processo. A peça jurídica em questão tratava de um pedido da mulher de um sargento que, segundo a suplicante (sempre quis usar esta palavra em algum lugar) havia sido morto em serviço e, portanto, ela evocava (essa também é dose) o direito de receber uma aposentadoria por conta de estar viúva do dito cujo. Este “nosso” amigo não teve dúvidas. Depois de “profundas análises” cotejadas (essa é de matar) com o código penal, a constituição brasileira e até mesmo a própria consciência (de poeta e homem da vida) cerca de dez dias mais tarde, em laboriosas (huumm!) e diligentes 15 linhas, deu o seu veredito que culminava com a palavra: “conceda-se”… Substituindo o indefectível “como requer” de antigamente.

A secretária, habituada com os pareceres de dezenas de laudas, quando viu aquelas pungentes 15 linhas, indagaou: “mas doutor, é só isso mesmo?”. “Por que?”… responde indignado o nosso amigo, “queria que escrevesse mais?”…

O procurador geral chamou este amigo e sem delongas, tascou “você é procurador do Estado e não um representante dos magoados e ofendidos da terra”… O cara ainda argumentou “Mas o sargento morreu em serviço!”… “o sargento estava bêbado”, acusa o procurador… “Mas poderíamos aliviar a vida da pobre mulher”, argumenta o nosso homem na procuradoria, quando foi interrompido pelo outro que não estava pra brincadeiras “Além do que, o colega dele que estava junto no dia do acidente também morreu”… Depois de um silêncio ensurdecedor (para usar uma frase original) este amigo comum saiu-se com esta: “quer saber, não sirvo pra isso não, este negócio de parecer não é comigo, oh! Prefiro fazer o Boletim Oficial aí da procuradoria e não se fala mais sobre isso!”… É, e não se falou mais mesmo, a não ser no Boletim.

Para Raul Caldas Filho, C. Ronald, Ricardo Hoffmann, Artêmio Zanon e Péricles Prade.

* Olsen Jr. escreve às sextas-feiras no jornal AN, caderno Anexo, p. B3.

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