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Beber a bordo

O escritor Amilcar Neves
O escritor Amilcar Neves
amilcar.neves@ig.com.br

por Amilcar Neves

Para ficarmos na mesma área – da legislação do trânsito -, quando foi implantada a obrigatoriedade de uso do cinto de segurança nos nossos carros, os arautos da democracia e dos direitos individuais botaram a boca no trombone. Muitos deles sequer se importaram com as barbaridades cometidas durante 21 anos pela ditadura militar: prisões arbitrárias, assassinatos, torturas, perseguições políticas, censura em todos os níveis e de todos os tipos, supressão das liberdades individuais, submissão da imprensa, mentiras, mistificações e, não achemos que não, muita, muitíssima corrupção e desvio de dinheiro público para bolsos privados.

Então, restaurada a democracia, quando nós retomamos o direito – inalienável – de escolher aqueles que nos representarão em todos os níveis do Executivo e do Legislativo (sem a tutela de coronéis e generais que se achavam superiores aos demais mortais, mais patriotas do que qualquer cidadão), e abertos os canais para que todos pudéssemos dizer livremente o que pensamos e queremos, inclusive para criticar e denunciar criminalmente quem for pego fora da linha, esses defensores da liberdade clamaram contra o abuso ditatorial de uma lei que pretendia tolher o direito individual de cada qual andar de carro como bem entendesse, obrigando ao uso do famigerado cinto.

E as histórias de “insucesso” se multiplicaram: o cinto machucava, contabilizava-se o número de pessoas com costelas quebradas e daquelas que morreram estranguladas; de carros que caíram num lago ou num rio e as pessoas pereceram afogadas porque não conseguiram se desvencilhar em tempo hábil daquela fivela que travava nas piores horas; de gente que sucumbiu esmagada entre as ferragens do acidente porque, se não estivesse firmemente presa ao assento do veículo, teria sido jogada para fora, pela porta que se abriria (que se abriu) ou pelo vidro que saltou longe antes do impacto final.

Esquecia-se a contabilidade das vidas salvas pelo cinto. Hoje, por ocioso, ninguém mais discute a importância desse indispensável acessório de segurança. E todos o usamos.

Agora, com a drástica redução nas margens de tolerância com o álcool ao volante (e só ao volante, quem for passageiro pode viajar feito gambá), a história se repete. Não parece haver muita imaginação criadora para abordar o assunto de forma diferenciada. Criatividade mesmo tiveram os donos de um restaurante de Curitiba (sempre Curitiba, inovando nas idéias e nas práticas): ao invés de ficarem lamentando a queda no movimento, de ficarem chorando as perdas (financeiras, não de vidas humanas) nos noticiários de televisão, tomaram a iniciativa de colocar caminhonetes à disposição dos clientes, para buscá-los em casa e devolvê-los sãos e salvos ao final da noitada, e de manter atentos motoristas para levar a um feliz destino os carros dos clientes que chegarem motorizados. Estão faturando em cima da novidade.

Como antes, também agora correm (e, presentemente, nas velocidades da Internet) histórias de insucesso que nunca serão comprovadas, por fantasiosas: o incauto motorista, apanhado pelo bafômetro, que foi severamente punido porque havia comido dois ou três bombons de licor, ou que, momentos antes do teste, usou anti-séptico bucal à base de álcool, ou, doente da tosse, tomou um xarope para acalmar os brônquios excitados, ou, ainda, valeu-se de cinco ou dez esguichos de própolis para amenizar a dor de garganta que o assediava.

Como antes, também agora fecham-se os olhos para as estatísticas que comprovam, nestes poucos dias de vigência da lei, a brutal redução de mortos e feridos no nosso trânsito.

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