A Ave da Vida

Pássaros

de Maria Odete Olsen

dentro de mim mora uma ave
cujo vôo de liberdade
tolhi por um sentimento
qualquer por vaidade
para ter uma ave
dentro de mim

longos anos se passaram
e esta ave dentro de mim
sobrevive em simbiose
com o meu sangue a minha essência
calada prisioneira
sem vôos nem cantos
apenas uma ave
dentro de mim

agora já bem tarde percebo
que uma ave enterrou suas garras
em mim para morrer
e como dói essa ferida
de uma ave encarcerada
cujo vôo de liberdade tolhi
para carregar esse orgulho
de ter uma ave
dentro de mim

hoje lágrimas derramo inutilmente
por esta ave que perdi
suas asas inúteis agora apodrecem
dentro de mim

Este é um poema que foi publicado em 1991, no livro Sem rimas e sem razão.
Este livro publicado pela Editora Paralelo 27, projeto de meu ex-marido e escritor Olsen Jr., surgiu porque acreditava que se não publicasse “aquelas coisas” que gardava em uma gaveta, jamais realizaria meu sonho. Nessa época ainda morava em Blumenau e sonhava em ser uma escritora. O projeto secundário, de sobrevivência, foi começar a trabalhar na extinta TV Coligadas. E assim a televisão foi absorvendo a minha vida. E tudo mudou para sempre.

1 comment to A Ave da Vida

  1. Olsen Jr.
    julho 25th, 2008 at 18:25

    É um belo poema…

    Talvez “a ave” não tenha morrido, apenas adormecido…

    Ao ler o poema lembrei de um texto de Hemingway a respeito do amigo (ou ex-amigo, porque ele tinha verdadeira compulsão em se voltar contra aqueles que o ajudaram no início da carreira, basta lembrar da Gertrude Stein, por exemplo e o próprio Fitzgerald de quem falo) Scott Fitzgerald e diz o seguinte:

    “Seu talento era tão espontâneo como o desenho que o pó faz nas asas de uma borboleta. Houve uma época em que ele tinha tanta consciência disso quanto a borboleta, não ligando para o fato de que seu talento podia apagar-se ou desaparecer de todo. Mais tarde começou a preoucupar-se com as asas feridas e sua estrutura; aprendeu a refletir, mas já não conseguia voar porque o amor ao vôo o abandonara. Restava-lhe apenas a lembrança dos dias em que vouar fora um ato natural”.

    Deve-se seguir o chamado, se o que vem de dentro não tiver força suficiente para nos absorver, é melhor não tentar… como dizem aqui na Ilha, “deixa quieto”…

    Não acredito que seja o caso, uma vez que os gritos ainda são ouvidos…

    Talvez a tal ave (metaforicamente nominada no poema) deva ser motivada, e que outro motivo pode ser melhor que ouvir o próprio grito?

    Congratulações e não pare de ouvir o chamado.

    Carinho do poeta, sempre!