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Não é o que parece

por Olsen Jr.

Estaria a musa no barco viking??????

Tarde de agosto na Ilha. Tempo nebuloso e uma garoa fina dardeja o ar. As partes verdes na Lagoa da Conceição ao longe lembram os fiordes da Noruega. Observo a paisagem com um sentimento nórdico, solitário, imaginando que ela – a musa – bem que poderia estar ali comigo naquela hora, mas foi um desvario repentino, logo penso ver um barco viking quebrando a monotonia daquelas águas plácidas e o meu sentimento de compartilhar aqueles momentos é interrompido pelo toque do telefone. Detenho-me um pouco mais e fixo aquele quadro…
Atendo:
― O senhor é o “seu” fulano?
― Sou!
― O senhor mora com mais pessoas?
― Moro com os meus fantasmas… E, aliás, “eles” estão em cada vez maior número.
― O senhor trabalha em rádio?
― Não, sou um escritor…
― Desculpe, é que com essa voz, pensei que o senhor fosse locutor de alguma rádio.
― Sem problemas, essa é uma linguagem nossa.
― O senhor é casado?
― Divorciado!
― Ah! O senhor tem faxineira?
― Não, aqui em casa faço a faxina da casa, a barra das calças, prego botão nas camisas, lavo e passo roupas, faço a minha comida, enfim, saí de casa com nove anos, e nada disso me é estranho… Claro que pensei em Marx, mas era outra história…
― O senhor costuma comer em restaurantes?
― Bem, argumento, dependendo do que se considerar como “alimento” como em qualquer lugar, em cima da mesa, no banco do carro, no banheiro do avião, na cozinha do restaurante…
― Como senhor?
― O que eu quero dizer é que quando se está faminto não se enjeita alimentos e nem lugar para degustá-los.
― Ah! Sim, claro… Risos…
― O senhor come carne diariamente?
― Agora não, mas já comi… Por questões de saúde, só peixe… Mas nos finais de semana não abro mão do bom e velho churrasco de guerra…
― E o senhor bebe?
― Bem, com churrasco não dá pra tomar suco de laranja ou água mineral, dá?
― Não, não… Claro que não…
― Tomo minha cervejinha, de preferência aquela de Blumenau, a Eisenbahn…
― Ah! Tudo bem, e o senhor costuma comer saladas nas refeições?
― Sim, pelo que já falei antes, saladas verdes, de preferência e frutas vermelhas…
― Quantas vezes por semana?
― Todos os dias.
― Se fossemos considerar o seu estado de saúde atual, como o senhor classificaria, ótimo, bom, regular ou…
― Diria que “inspira cuidados”…
― O senhor vai ao médico regularmente?
― Uma vez por ano, mas aprendi a controlar a minha alimentação, o colesterol, os triglicerídeos, a pressão, etc.
― Ah! Bom, e como é o tratamento na área de saúde em sua cidade?
― Bom, a pior coisa que pode acontecer para alguém que mora aqui na Ilha seria ficar doente e não ter um plano de saúde…
― O senhor tem um plano de saúde?
― Não! Calma, sou uma pessoa inteligente, culta, tenho os meus métodos…
― Bem, muito obrigado pela entrevista, agora vou passar para minha superiora que vai fazer mais três perguntas para uma avaliação dessa conversa…
A outra mulher me faz três perguntas que já haviam sido feitas e dou as mesmas respostas, indagou, inclusive, se trabalhava em rádio (porque com esta voz, deveria) e se apresentou como alguém ligada ao Ministério da Saúde…
Educadas e eficientes, penso, mas será que irão falar com todo o mundo?
… Volto para a minha varanda, a placidez daquelas águas na Lagoa da Conceição me arrebata, vejo – de fato – um barco viking singrando as águas, se aproximando da margem, em minha direção… E ela, a musa, como uma Valquíria, emerge tornando longínquos os fiordes, agora, foi quando dei por mim, só, lembrando da pergunta da mulher no telefone: “sobre o meu estado de saúde?”…
Huumm! Inspira cuidados. Acho!

* Olsen Jr. escreve às sextas-feiras no jornal AN, caderno Anexo, p. B3.

1 comment to Não é o que parece

  1. Leonardo
    agosto 12th, 2008 at 14:05

    Muito cômico 🙂