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O poeta alagoano e o cd dos 40 anos

José Inácio Vieira de Melo

José Inácio Vieira de Melo, poeta alagoano radicado na Bahia, comemora seus 40 anos com o lançamento do cd poemas A casa dos meus quarenta anos , na livraria LDM Multicampi, em Salvador, dia 13 de setembro. José Inácio é jornalista, co-editor da revista de arte, crítica e literatura Iararana e colunista da revista Cronópios. Eu o conheci em 2005 junto com outros poetas nordestinos, quando estive em Salvador e eles realizavam o projeto Malungos, no Rio Vermelho. Publicou os livros Códigos do Silêncio (2000), Decifração de abismos (2002), A terceira romaria (2005) – Prêmio Capital Nacional de Literatura, do jornal O Capital, de Aracaju (SE), e A infância do centauro (2007).
José Inácio Vieira de Melo [1], fala com exclusividade ao blog do Educação e Cidadania.

Maria Odete – Para que ou a quem serve a poesia nesse mundo globalizado, “tecnologizado” se assim pudermos definí-lo e apressado. Voce realmente acredita que as pessoas ainda param para folhear um livro e ler um poema?

JIVM – A poesia serve para aqueles que a buscam, para aqueles que querem ir para além dos muros do sistema e freqüentar as esferas do delírio. A poesia não tem uma finalidade ordinária, não tem um fim prático, por estar em outra dimensão – a poesia é algo extraordinário e quem a experimenta jamais será o mesmo.Eu realmente acredito que algumas pessoas lêem poesia. Sei que são poucas, mas existem, são as escolhidas.

Maria Odete – Segundo o crítico Adelto Gonçalves, você é um poeta atrelado às raízes populares, inspirado por repentistas e por Jorge de Lima (estou correta?) Em seu terceiro livro A Terceira Romaria, vc deixa isso bem claro ao escrever o poema Ciço Cerqueiro:

O meu é fazer cerca:
cavar buraco, aprumar mourão,
esticar arame com pé de cabra,
apregar grampo nas estacas.

Em troca peço pouco
basta me dar leite azedo
rapadura, farinha e uma hora
de sombra de pé de pau.

Pelo pouco que pesquisei, muitas destas palavras, refletem imagens de sua vida e de sua infância. Você acredita que ao fazer este revival o poeta cumpre a sua missão de trazer a tona realidades que o cotidiano acaba solapando as pessoas?

JIVM – Desde os repentistas, vates populares e mestres intuitivos da métrica, até os poetas indispensáveis do cânone ocidental, são referências na minha produção. Jorge de Lima, meu conterrâneo é um dos poetas da minha predileção e, sem sombra de dúvidas, um dos maiores da língua portuguesa. O cenário e os personagens sertânicos aparecem com freqüência na minha poesia, mas não chegam a ser determinantes. Uso o vocabulário e os costumes do sertão, lugar de minha origem, para abordar os sentimentos universais, sem, no entanto, me restringir ao que se poderia chamar de poesia regional.

E para finalizar, quando estive em Salvador em 2005, e conheci vc e vários poetas nordestinos vi a fluência que a maioria de vocês têm em declamar, improvisar. Isso é coisa do Nordeste mesmo, está no sangue?

JIVM – Que os nordestinos têm uma memória de causar inveja e a poesia no sangue isso é um fato. Mas nas outras regiões também há muitos recitais, onde os poetas espalham seus versos aos quatro cantos, a exemplo do Rio grande do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro, onde acontecem sistematicamente vários recitais, com agenda anual já definida. De modo que existem por todas as partes os obstinados, que são aqueles que conduzem a chama do fogo sagrado da poesia nos tempos e pelos tempos.