Fausto Wolff

por Olsen Jr

Jornalista e escritor Fausto Wolff

Diante da campanha de difamação que se orquestrou após a morte de Paul Nizan, filósofo e escritor, morto em combate na Segunda Guerra Mundial, Jean-Paul Sartre, seu melhor amigo, disse num ensaio (livro Situações IV) “… Não bastava que você estivesse morto era necessário que nunca tivesse existido”.

Lembrei disso agora, companheiro, porque percebo uma conspiração velada, de silêncio e indiferença, parecem que os “bancos de memória” dos jornais foram confiscados e deixados em seu lugar, apenas algumas informações básicas para dizer que você existiu: “nasceu em Santo Ângelo no Rio Grande do Sul, começou no jornalismo aos 14 anos, foi para o Rio de Janeiro, esteve no Pasquim, foi exilado na Dinamarca (onde ensinou literatura sul-americana) em Nápoles e Grécia. Escreveu um e outro livro mencionado ao gosto do plantonista para o teu rápido necrológio, e só!”.

Desde a obra “O Campo de Batalha sou Eu” (de 1968) até este último “Olympia” (2008) você produziu muita coisa. Lembro daquele que comprei em uma bienal em São Paulo “Palestinos, Judeus da Terceira Guerra Mundial”, um livro reportagem em que ninguém avisou para você que o Arafat tinha um poderoso estafe de segurança e você simplesmente foi lá e entrevistou o homem, quando perceberam, tinhas saído com uma grande reportagem, claro que teve gente perdendo o emprego semelhante aquele alemão que aterrissou na Praça Vermelha em Moscou, de planador, lembra-se? Poderia falar daquele livro maravilhoso “Sandra na Terra do Antes” que você publicou na Dinamarca e começou quando você contemplava a tua filha Sandra Liberty no carrinho de bebê e se fez a pergunta, “se esta menina pudesse externar o seu pensamento o que ela diria?”. Fostes comparado a Hans-Christian Andersen… Sim, tem aquele “Mataram a Mãe Gentil” em que você me transformou em personagem… E vai por aí, “O Acrobata Pede Desculpas e Cai”, “Matem o Cantor e Chamem o Garçom”, “O Dia em que Comeram o Ministro”, “Rio de Janeiro: Um Retrato”, “O Dedo de Deus”, “O Lobo Atrás do Espelho”, “A Mão Esquerda” (por conta deste, ganhou o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro), “A Imprensa Livre do Fausto Wolff”…

Fausto tinha algumas das qualidades que fazem um grande escritor, primeiro a capacidade de se indignar, de tentar mesmo com a literatura construir um mundo novo; bom observador, excelente memória que lhe permitia dispensar papel e lápis na maioria de suas andanças; era dotado de grande compaixão, junto com um estilo (sem o qual um escritor não é nada) e que lhe garantia uma produção de grande força e empatia com os menos favorecidos com quem sabia compartilhar bebida e solidão.

Na semana passada escrevi em minha crônica que você era uma espécie de irmão mais velho que eu não tive. Mal sabia que você estava internado há uma semana e iria morrer exatamente naquela sexta-feira. Talvez se tivesse tomado conhecimento daquele texto você protelasse a despedida, numa espécie de vislumbre futurístico de alguém que pudesse pretender repetir os teus passos e resolvesses fazer um alerta “Calma, guri, Fausto Wolff só tem um” ou então, como naquele poema que você me dedicou e terminava assim “… Vai guri, segue a tua sina, tua mina, teu nórdico mar e o importante amigo, é a sincera convicção de que os bons estão todos no mesmo barco”. Ninguém entendeu porque você escreveu em cima da toalha da mesa no restaurante, mas fique tranqüilo, dei um jeito de levar a toalha comigo.

De tanto esgrimir contra mil demônios você acabou magoando os teus pares incapazes de entender que tu eras o campo de batalha, mas deste, só participam os que ainda não perderam a capacidade de se indignar, como nós!

* Olsen Jr. escreve às sextas-feiras no jornal AN, caderno Anexo, p. B3.

11 comments to Fausto Wolff

  1. Arthur Monteiro
    setembro 11th, 2008 at 21:05

    Poeta. Passei uns dias com meus filhos em SP. Eles me informaram sobre a morte do Fausto e, como eles, ao receber a notícia, pensei em ti: na amizade, no respeito e na admiração que voces nutriam. Um abraço.

  2. Nilson Borges Filho
    setembro 11th, 2008 at 21:08

    Olsen, incrível!!!
    Hoje li seu artigo onde vc fala do Fausto Wolf.
    E agora sai a notícia da morte dele. Você deve estar triste com tudo isso.
    Abs
    Nilson, de BH.

  3. Carlos Adauto Vieira
    setembro 11th, 2008 at 21:13

    Mano, perdemos um ícone, literário e ideológico. Ainda na semana passada li o teu artigo falando nele. Nesta, meu filho Carlão perguntou se o conhecia, porque estava lendo uma obra dele. Falei quase tudo o que sabia sobre o… lembrei a noite de autógrafos… que porre! Gostosíssimo! Fausto ( o nome já dizia). Hoje levei um porrada no estômago, quando abri o globo. Tanta gente na minha lista para ser chamada. Logo ele!!!??? Senti como deveria. Abraços de recíprocas condolências. Adauto.

  4. Katie Elizeire
    setembro 11th, 2008 at 21:15

    Oi meu primo!
    Não sabia da partida de Fausto Wolff, se soubesse já teria escrito solidária com seus sentimentos, sei o quanto o admirava. Nós perdemos um bruto maravilhoso, você perde um amigo. A mãe adorava Fausto Wolff, através dele podia dar vazão a sua revolta, se aqui estivesse com certeza eu iria saber por ela desta perda.
    Um beijo,
    Katie.

  5. Ricardo da Silveira
    setembro 11th, 2008 at 21:18

    Oldemar, meu caro,
    Li este teu último mail e a notícia quase ao mesmo tempo… Sinto muito, mesmo.
    Não sei o que dizer nestas horas. Melhor ruminar a dor e beber uma, por ele.
    Ricardo.

  6. Sonia Felipe
    setembro 11th, 2008 at 21:20

    Dele, só foi embora mesmo, o corpo!
    Isso é o que importa!
    Mesmo que não gostem de nós, fazemos o que devemos para que a memória que ficará de nós seja reverente. Para os que viveram com dignidade, aqui vai minha reverência!
    beijos
    Sonia T.

  7. Fabio
    setembro 15th, 2008 at 11:46

    Oi Olsen,
    Pois é, que tristeza a perda do Fausto. Achei que ele ia ser uma daquelas
    falhas da natureza que bebem todo dia e vivem até os cem anos 🙁
    Mas o mais triste é o que você falou, do apagamento dele. Saiu o segundo
    volume de coletanea do pasquim, e em nenhum dos dois nada do Fausto.
    Um dia eu vou atrás dos Pasquim antigos para tentar reunir os textos dele.
    um abraço
    Fabio Soares

  8. Luca
    setembro 15th, 2008 at 11:48

    Como já era “amiga” dele, também…..sinto muito. Como é bom sentir, mesmo que pela dor, esse coração batendo. Por conhecer esse sentimento sou tua parceira, sempre.Como é bom poder escrever,né? Alguns “guerreiros” serão sempre (re)conhecidos por pessoas que lembram e sabem o que ainda vale muito a pena ser dito… Sei que apesar do “todo”…Ainda tem gente que sabe escutar e tenta melhorar… O seu mundo,o que já é alguma coisa,ou não.
    Carinhos Luca.

  9. Sérgio Rubim
    setembro 15th, 2008 at 11:52

    Como é triste um País sem memória, ou pior, com memória seletiva, pior ainda com memória chapa-branca. Peço licença a ti ao Olsen Jr. para postar esta crônica em meu blog.
    Um abraço
    Carlos Herique Rech

  10. Paulo Medeiros Vieira
    setembro 15th, 2008 at 11:54

    Canga,
    Faz a ponte com o Olsen pra eu poder postar também no maisbarulho.blogspot.com. Emocionante manifestação de amor-amigo sem babaquices e rapapés falseados. E tem gente que tem medo do lirismo que se esconde dentro dos gestos simples. Olsen, minhas modestas saudações, sinceramente emocionadas pela verdade que carrega. Os outros que se f. se não entedenram a indignação de FAUSTO.
    Paulão.

  11. Sára Wolffenbuttel Véras
    setembro 27th, 2008 at 13:09

    Caro Olsen!
    Por ser meio bicho do mato, pouco entendendo de computador, somente hoje entrei no google e digitei o nome de meu irmão e vi a quantidade de pessoas e amigos que falavam a cerca dele e de suas obras.
    Li tua crônica e senti o profundo respeito e amizade que tinhas por Fausto. Agradeço-te por tuas palavras e desejo-te muito sucesso como cronista e escritor .Sei que não é fácil num mundo onde os grandes tentam corromper aqueles que possuem ,como tu ,uma visão diferente e que, como Fausto, não se deixa comprar.
    Um grande abraço,
    Sára W. Véras