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ACORDO ORTOGRÁFICO – Da torre de Babel à torre de papel

Por Deonísio da Silva
“Toda a Terra tinha uma só língua e as mesmas palavras.” (Gênesis, 11, 1).

Vamos reaprender?

Auto-respeito ou autorrespeito? Coerdar ou co-herdar? Infra-estrutura ou infraestrutura? Minidicionário ou mini-dicionário? Mini-saia ou minissaia? Pára-raios, para-raios ou pararraios? Tintim ou Tim-tim? A lista de cerca de 20 000 palavras com hífen ficou bastante alterada depois do Acordo Ortográfico, baixado pelo presidente Lula no fim do ano passado, com prazo de aplicação até 2012.

Nossos problemas gramaticais vêm de longe. Em 22 de janeiro de 1500, três meses antes do descobrimento do Brasil, o rei português Dom Manuel I, o Venturoso, determinou: “Avemos por bem que nehum moço fidalgo não seja apontado nem paga a sua moradia, salvo por certidão de Dieg´Alvares, Mestre de Grammatica”.

O que o rei quis determinar? Que nenhum fidalgo analfabeto fosse nomeado (apontado) para o serviço público, ou ganhasse alguma coisa do erário, sem que o professor Diego Álvares atestasse que o nomeado sabia ler e escrever.

Cinco séculos depois, baixada ordem semelhante, o Senado, a Câmara Federal, as Assembléias Legislativas e as Câmaras Municipais seriam dizimados e, em alguns casos, esvaziados. Quantos senadores, deputados federais, deputados estaduais e vereadores passariam numa prova de gramática da língua portuguesa? Quantos dos mais de cinco mil prefeitos, respectivos secretários e assessores seriam aprovados?

Agora, então, com o novo Acordo, a coisa piorou muito. Mas nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Os brasileiros viveram e escreveram 453 anos sem Acordo Ortográfico. O primeiro surgiu em 1943, no penúltimo governo de Getúlio Vargas, político preocupado com a unidade nacional.

Vendas a rodo

Fazia apenas 36 anos que o padre Fernando de Oliveira tinha publicado a sua Grammatica da Lingoagem Portugueza quando surgiu a referência solar da língua escrita – Os Lusíadas, publicado em 1572.

Até então, desde o século 16, quando ocorreram as primeiras manifestações escritas da língua portuguesa no Brasil, obra de portugueses que para cá vieram ou brasileiros natos, até a Segunda Guerra Mundial, cada um escrevia como queria, abusando de consoantes dobradas, agás, ípsilons, hífens etc.

Como está a questão hoje? Em empresas, escolas e universidades, ouvem-se os pedidos de socorro, o principal dos quais é a dúvida se a palavra tem ou não hífen: “Tudo junto ou separado?”.

É oportuna uma reflexão sobre nosso modus operandi para agirmos organizada e coletivamente – a língua é nossa! – com o fim de consertar a desarrumação que tomou conta de nosso modo de escrever.

Em vez de discutirmos amplamente todas as questões, pois tivemos bastante tempo para isso, vez que o Acordo foi concebido ainda na década de 1980, optamos por esta confusão causada pela pressa com que pessoas abnegadas e outras muito espertas tentaram atender ao distinto público.

As abnegadas quiseram atender; as espertas quiseram vender, que é também uma forma de atender, naturalmente, mas que tem, digamos assim, limites éticos mais esgarçados.

O sucesso dessas últimas é impressionante, por motivos óbvios. Tenho olhado com melancolia para pais que, orientados pelos filhos, dirigem-se aos caixas das livrarias para pagar altos preços por gramáticas e dicionários, depois de ouvir dos pimpolhos que “a professora disse que é este aqui”. “Mas aqui na lista está este”. “Mas mudou!”.

Letra da lei

No governo e fora dele, há profissionais trabalhando e sofrendo para arrumar a aplicação do Acordo. A crise por que passa a forma de escrever em língua portuguesa trouxe novas oportunidades de trabalho para profissionais de Letras.

Reitero que sou a favor do Acordo Ortográfico. Línguas de cultura como o latim, o grego, o inglês, o francês, o alemão, o espanhol e o italiano estão unificados há muito tempo. Até o árabe, que tinha catorze grafias, agora tem uma só.

Passou o tempo de lamentar e reiterar que o Acordo poderia ter sido feito de outro modo. É hora de, todos juntos, colaborarmos para sua aplicação. O Acordo agora é lei.

Fonte: Observatório da Imprensa

Conheça as novas regras gramaticais. [1]